terça-feira, 20 de dezembro de 2016

OS TEMITAS - Conto de Família

Uma Lenda contada de criança a criança, pode e deve ser revelada aos pais e com especial carinho às mães.

OS TEMITAS



  Avô: Poucos conhecem estes seres pequenos. Muitos sofrem as suas consequências! Ahhh, pois. Existe uma história, de há muitas gerações passadas, que me foi contada, e eu vou contar-ta agora a ti.

  É de manhã. Neva um pouco. (começa por contar o avô)
     - Houve outro assalto! – conta a Sra. Clara à minha mãe. - É o terceiro rapto esta semana. Roubo de cães! – diz, exaltada.


     - De cães? – repete o Sr. Diamantino, o velho sapateiro da aldeia. – Ora que boa-nova! Rafeiros é o que não faltam – comenta.
  A Sra. Clara fica vermelha. Agarra, com força, a alça da sua carteira vermelha e inspira fundo.
     - A cadela da Clara desapareceu, Sr. Diamantino. Ela não é rafeira – explica a minha mãe, evitando uma guerra que se avizinhava entre aqueles dois.
     - Ela tem pedigree! – clarifica a Sra. Clara, magoada pela perda da sua querida cachorrinha e pela rudeza do velho sapateiro.
     - Mas não é tudo a mesma coisa? – fala ele, rindo-se sozinho.
  A Sra. Clara agarra, com mais força, a carteira. Engole em seco, dá um pequeno olhar amigável à minha mãe e vira costas. Não dirigiu mais a palavra, ou o olhar ao Sr. Diamantino, nem a mim…
     - Não foi correto – apreende-o a minha mãe.
  Dá-me a mão e leva-me para casa, sem nos despedirmos dele.
     - Quem anda a roubar os cães, mamã?
  Ela comprime os lábios. Damos mais uns passos e chegamos a casa. Ouço o tilintar das chaves, enquanto a mamã abre a porta.
     - Não sei, filho. O melhor é ficarmos por casa, até isto passar – responde, com o seu olhar calmo, mas severo.
     - E o boneco de neve? – insisto. - Eu quero mesmo fazer um!
  Ela tranca a porta de casa e leva-me para ao quarto.
     - Hoje, ficas aqui. Amanhã, vemos se é seguro – sentenceia.

Neto (a): Mas o que é que isto tem a ver com os seres pequenos, avô?

Avô: Shhhh! Deixa-me contar a história. Já lá chegaremos. Onde é que eu ia… Ahh! Sim…

  A mãe sai do quarto, confiante que ficar em casa é o mais acertado. No entanto, tinha-lhe escapado o mais importante! Um cão pequenino, companheiro nas aventuras que o rapaz tanto aspirava, encolhido num canto do quarto.
 O rapaz, chateado, deixou-se ficar estendido na cama, com a cabeça na almofada. Se ele soubesse o erro que acabava de cometer...
  Por debaixo da cama, pequenos monstrinhos verdes arquitetavam outro roubo. O rapaz estava mesmo ao lado, mas eles queriam algo mais ousado. Eles queriam o cão!
 O cachorro, preguiçoso de nascença, limitou-se a olhar para eles. O que é que uma dúzia de indivíduos do mesmo tamanho que uma pulga, poderiam fazer contra ele? Ele, mesmo sendo um cão pequeno, dava conta daqueles bichos… O que ele não sabia era que muitos outros cães tinham pensado o mesmo que ele. Todos eles foram apanhados de surpresa!


  Lentamente, aqueles pequenos seres rodearam o cão. Ele, sobressaltado, levanta-se, estende as suas patinhas e prepara-se para rosnar, assustar e, quem sabe, alertar o dono da invasão.
  Contudo, o cão não fez barulho e o rapaz não reparou. Aqueles monstrinhos verdes tocaram no pequeno cão. O cachorrinho não sabia… Um toque daqueles intrusos e um cão grande ficaria condenado a dormir uma noite a fio. O que seria dele?
  Como fizeram com o cão antes dele e com o cão antes do cão antes dele, agarram-no e, com uma força admirável para o seu tamanho, eles levam-no até o parapeito da janela.
  O rapaz tem de olhar agora! Os monstrinhos não têm força para pôr um humano a dormir. Ele pode salvar o cachorro preguiçoso!
  Porém, isso não aconteceu. O rapaz não olhou para a janela. Ele não os viu. Contudo, eles também não levaram o cão...
     - João! – chama a mãe, abrindo a porta. – Queres ir fazer um boneco de neve? – pergunta-lhe, depois de refletir e chegar à conclusão que o filho não precisa de andar escondido. Afinal, só andam a desaparecer cães!
  O João está prestes a responder ao sorriso afável da mãe, quando, subitamente, ela para de sorrir.
     - João, o que é que o cão está a fazer na janela? – grita-lhe.

  Naquele dia, o João ficou de castigo e não fez o boneco de neve. Os monstrinhos verdes também não raptaram o pequeno cão presunçoso. Naquele dia, foi uma mãe que mudou o rumo da história.

Luís Telles do Amaral